segunda-feira, 17 de maio de 2010

Through the show


Neste final de semana participei da 17ª Taça João Batista Ribeiro Neto, a 2ª semifinal do Campeonato Citadino de Florianópolis. Vários dos melhores jogadores da cidade estiveram presentes e dentre os 20 participantes 8 possuem rating FIDE (o torneio teve FIDE médio de 2057). As partidas podem ser baixadas no site do Clube: www.cxf.com.br

O Pirola venceu o torneio com 4,5 pontos em 5 possíveis após vencer o Umetsubo, que liderava, na última rodada. Vale dizer que o meio ponto que ele não fez foi por causa do bye ausente na primeira rodada. Nas posições seguintes ficaram os dois competidores que me derrotaram, Umetsubo e Brayan. E no feminino, a Amanda foi campeã com uma rodada de antecedência (aliás, na última rodada estava disputando o terceiro lugar). Agora, a lista de classificados para o Citadino é a seguinte:

1. Daniel Brandão (campeão Citadino 2009)
2. César Umetsubo (campeão do CXF 2009)
3. Marcelo Pomar (campeão da Taça Florianópolis)
4. Gílson Chrestani (3º na Taça Florianópolis)
5. Kaiser Mafra (4º na Taça Florianópolis)
6. Antônio Moro (5º na Taça Florianópolis)
7. Claudionor Pirola (campeão da Taça João Batista)
8. Brayan Paredes (3º na Taça João Batista)
9. Jaílson de Melo (4º na Taça João Batista)
10. Alexandre Lima (7º na Taça João Batista)

Ainda restam duas vagas, que são destinadas ao campeão juvenil e à campeã feminina de Florianópolis. Dos 10 já classificados, 7 possuem rating FIDE, numa média de 2074.

Eu usei este torneio como um laboratório, já que não preciso disputar vaga para a final. Claro, também queria ter ficado in the money, usando uma expressão do poker, mas era importante testar um jeito de jogar que venho trabalhando ultimamente e consequentemente as aberturas coerentes com essa maneira de jogar. A estratégia era bastante simples: buscar pequenas vantagens com brancas/igualar com pretas, fortificar a posição no meio-jogo, aproveitar eventuais oportunidades e, o mais importante, ganhar o final. Essa estratégia funcionou bem e mal, por motivos específicos em cada partida. Apenas na última decidi fazer o oposto do que me propus e, como sói acontecer nesses casos, o resultado foi um desastre. Vamos por partes.

Na primeira rodada, emparcerei de pretas com a Karoliny da Cruz, atleta das seleções e forte candidata a campeã de Florianópolis 2010. 1.e4 e6 2.d4 d5 3.Cd2 Cf6 4.Bd3 de4. Aí é que está o ponto. Aparentemente, esta variante combina com a forma que escolhi jogar pois leva à posições com pouca confusão enquanto o preto espera para jogar o final. O problema, que eu descobri nas duas partidas que a empreguei neste torneio e na terrível partida que perdi pro Pomar na 2ª rodada da Taça Florianópolis, é que o preto sofre com uma passividade crônica! Há uma série de defeitos nessa linha, pra começar o fato de ser muito, muito fácil pro branco achar lances bons. Em segundo lugar, é quase impossível para o preto tentar criar problemas para o branco sem criar mais ainda para si. Por último, é preciso gastar uma grande quantidade de energia e tempo para evitar ataques ou se defendendo deles. E tudo isso pra quê? Chegar a um final igual ou, no máximo, um pouco melhor. Enfim, literalmente uma defesa ingrata.

A partida com a Karol foi mais ou menos como dito acima, mas por gastar muito tempo para achar os lances ela acabou cometendo um erro bobo no final quando já estava bem apertada no relógio, pendurando uma peça. Se tivesse feito um lance normal, provavelmente a partida teria se prolongado bastante no final subsequente.

Na segunda rodada emparceirei de brancas contra o Umetsubo e resolvi jogar 1.e4 (afinal de contas, preciso fazer uso do tempo que dediquei à experiência prática com esse lance quando há uma boa oportunidade). Mas eu não esperava que ele fosse ainda mais audaz (!) e respondesse com 1...e5! Depois desse choque, tive que gastar um tempo escolhendo o que jogaria e quis uma Ruy Lopez das trocas, com o plano mais morno de d2-d4 rápido e troca de damas. Apesar do plano exótico (?!) de Re8-d7-c6 que ele escolheu, parece que eu não entendi bem alguns detalhes estratégicos muito importantes no meio-jogo e a coordenação das minhas peças ficou muito pobre. Depois de uma bagunça na ala da dama, dei margem pra que ele estourasse no flanco rei, ativando forte os bispos e após um Bd2 de última hora pendurei uma qualidade. Logo tive que abandonar...

Então o jeito era ganhar as três últimas e repetir a história da Taça Florianópolis. Na terceira rodada peguei outro aluno das seleções de Florianópolis, o Gabriel Gerber. 1.e4 e6 2.d4 d5 3.Cd2 de4 de novo. Ainda não convencido de que essa variante não me serve, resolvi experimentar mais uma vez. Afinal de contas, se tanto GM joga isso, porque há de ser ruim?? Na verdade, me parece que essa linha é empregada por quem sabe segurar a onda no meio-jogo e busca um empate no final. Aliás, só pode ser isso uma vez que o preto abre mão absolutamente de qualquer tentativa de obter iniciativa. Ou pode ser por razões psicológicas, mas de qualquer forma, não passou no teste. Tanto que a evitei na 4ª rodada, contra o Gílson.

A partida contra o Gabriel seguiu nos mesmos moldes da partida contra a Karol, exceto pelo momento em que ele sacrificou um peão em d5, um bispo em h7 e penetrou na sétima para... chegar a um final levemente inferior. Nenhuma das partidas foi analisada com a ajuda do computador ainda, mas parece que a sequência forçada que ele me impôs não promete muita coisa para o branco. Em um final de 2T+C vs. 2T+B eu levo a melhor por possuir o bispo em uma posição aberta e posse da coluna 'd' - a ponte entre as duas posições. Logo resolvi me desfazer do bispo para debilitar mais a posição dele embora achasse que a posição não era boa o suficiente para ganhar. E o Gabriel até achou uns lances legais, tentando criar contra-jogo e embora ainda não tivesse secado, a partida parecia mais próxima da igualdade do que qualquer outra coisa. Mas aí ele decidiu oferecer uma transposição para um final de peões visivelmente perdido e converti. Claro, se ele não tivesse escorregado no lance específico que permitiu a transposição, eu seguiria forçando e tentando criar alguma coisa, mas vale a pena tentar forçar uma micro-micro-micro vantagem no final depois de ter deixado o branco jogar totalmente livre na abertura e meio-jogo?? Acho que não. Definitivamente, não.

Na quarta rodada enfrentei o Gílson, com pretas, e depois de 1.d4 e6 2.e4 (opa!) d5 3.Cc3 Cf6 4.Bg5 Be7 e que venha o Chatard-Alekhine, nada de 4...de4. Para minha felicidade ele jogou 5.e5 Cfd7 6.Be7. Como ele jogou uma linha pouco habitual, segui um plano do Morozevich (acho que é dele, só vi uma vez) e logo consegui uma posição confortável. Em certo momento ele sacrifica o peão, mas foi um lance difícil de decidir porque haviam alguns outros lances igualmente críticos. Optei por aquele que me pareceu razoável, embora pudesse ter ganho mais material em troca de um ataque que eu não pude calcular tudo para saber se eu poderia defender ou não. Como já escrevi aqui antes, não dá pra consumir todo o tempo disponível procurando algo que não se sabe se está lá, por isso tomei a decisão prática de capturar "apenas" o peão de e5, podendo na sequência resolver os problemas estratégicos da minha posição. Então, avançando na partida, me pareceu que o peão a menos do branco estava compensado pela possibilidade de abrir linhas e atacar (f7-f6 provavelmente foi ruim) e muito contente devolvi o peão para chegar a um final de 2T+B vs 2T+B. A minha posição, penso eu, era melhor porque havia pouca ação no flanco rei, e meu rei estava próximo da ação que viria a se desenrolar no flanco dama. Mais contente ainda fiquei quando percebi a enorme diferença que o material que venho estudando fez, me permitindo transformar com segurança uma pequena vantagem em um ponto inteiro, mesmo apertado no relógio.

Então, só faltava vencer o Brayan Paredes na última rodada. E foi aí que o trem descarrilou. Apesar de ter jogado de forma sólida ao longo do torneio (até demais, diriam uns), resolvi me aventurar em busca do ponto. Depois de tomar um drible na abertura, resolvi sacrificar uma peça por chances obscuras, buscando o desequilíbrio que poderia me deixar com mais chances de vencer. Pergunta: porque tentar vencer desse jeito quando ao longo do torneio me saí tão bem nos finais após posições secas?? E aí ocorre que ele devolveu a peça e chegou num final melhor.

E chegou a um determinado momento em que o par de bispos não compensava em nada meu peão a menos e passei pra um final T+B vs T+B com bispos de cores opostas. Aí o detalhe importante é que para mim não fazia diferença empatar ou perder, já que só entraria no dinheiro ao ganhar. Por isso fiz uso de alguns truques para tentar manter viva alguma chance de vencer (!), do tipo evitar transposições para finais obviamente empatados ou ficar propositalmente com poucos segundos restantes antes de fazer o lance (tá, tá, eu sei, é um macete muito do sem-vergonha, mas pra tentar vencer nessa situação vale tudo). Infelizmente pra mim ele se manteve frio e foi melhorando a posição pouco a pouco. Aí veio a falha técnica realmente, quando achei que ainda estava no limite entre o empate e a derrota mas já estava perdido. No final da partida o Jaílson me explicou um conceito bem simples que rege esses finais.

E no fim, fora do prêmio e vencendo com gosto de derrota (exceto na 4ª rodada), não deu pra evitar a sensação de fracasso, mas no problemo. Tive o mesmo objetivo nas duas semifinais: testar, experimentar; reunir experiência para os torneios mais importantes. Nesse torneio ainda senti um pouco de falta daquele ânimo competitivo de que falei no último post, mas não posso fazer muito nesse sentido além do que fiz: me esforçar. Não sei quando volto a jogar, mas espero estar bem para mostrar serviço e ficar em forma para defender Floripa - jogando - nos JASC 2010.

2 comentários:

  1. Quem leu os cometários que fiz no post sobre o Aberto do Brasil de São José sabe que, além ser melhor que Cabinho, Memê é profeta.

    Quem tiver ouvidos, que ouça!

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  2. É, Memê... profeta é exagero, mas de CU e Pirola tu entende.

    uahuahau

    Abs

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