"Hoje não! Hoje não!! Hoje sim..."
Cléber Machado
Cléber Machado
Foi uma das piores largadas que já tive. Na primeira rodada puxei o Jairo Cordioli, que certamente tem um rating abaixo do real, para a mesa 10. Depois de várias simplificações chegamos a um final de bispos de mesma cor e peões nas duas alas, ele com uns 2 minutos a menos, e veio a proposta de empate. Recusei, naturalmente (!?), e continuei tentando alguma coisa, embora não houvesse muito o que tentar. Então, após uma inocente transposição para um final de peões minha posição se deteriora rapidamente.
Foi assim o começo da 4ª etapa do Circuito Catarinense de Xadrez Rápido para mim. Depois me questionei se a decisão de recusar o empate foi errada, se havia alguma idéia na abertura ou mesmo no meio-jogo para jogar mais ativo e evitar uma posição tão sem graça, mas parece que o erro foi simplesmente deixar chegar a uma posição obviamente perdida. Com pretas, não havia muito mais o que desejar além de igualar (mesmo levando a uma posição sem muito para criar), e quanto ao empate recusado há duas justificativas plausíveis: eu era favorito no rating (argumento questionável, mas válido); e o principal, não havia porquê perder aquela posição. Mas eu perdi...
Esses pensamentos vem à minha cabeça agora, mas após a partida fiquei confuso e só tive o cuidado de anotar a posição em que o Jairo me ofereceu empate:

Creio que foi nesse momento, mas talvez o rei preto esteja em d6 o bispo branco em e3. De qualquer forma, me parece que pela configuração de material e peões a posição está mesmo empatada.
Ainda com cara de cachorro que se perdeu na mudança, sento na mesa 25 pra jogar contra a Karina Kanzler. E o César, ao passar pela mesa lá atrás me pergunta, na sua inocência nipônica: "Ué, que 'cê tá fazendo aí??". ¬¬
Aliás, quem desencantou e conquistou o torneio (depois de ser ultrapassado várias vezes na última curva em outras etapas) foi ele mesmo, que fez 7 em 7.
Nessa segunda rodada, pendurei primeiro um peão, desses que não dá nem pra disfarçar e fingir que foi pendurifício. Então pendurei outro, e aí foi uma questão de esperneio. A Karina, que joga muito bem por sinal, também não estava num bom dia e ao invés de converter a vantagem material com paciência resolveu investir num plano de ataque desnecessário, e eu achei uns lances não muito óbvios. Acaba que ela precisa me entregar uma qualidade e fica perdida. Partida horrível, mas ponto no bolso. Pode ser pior?
Pode sim, a terceira rodada podia ser antes do almoço. Felizmente tive tempo pra esfriar a cabeça, tentar colocar os pensamentos em ordem e me preparar psicologicamente para a terceira rodada. Aliás, acho que um dos problemas dos torneios de xadrez rápido para mim é o pequeno intervalo entre uma rodada e outra. Pode até ser um defeito, mas eu me sinto mais seguro quando consigo limpar a mente antes de começar outra partida... Sem a preparação mental mínima, jogo de forma muito menos técnica e não consigo colocar nas partidas o meu melhor.
Aí veio a terceira rodada, contra o Marcelo Senger. Ele pareceu não saber muito bem o que fazer numa francesa do avanço e eu obtive posição ganha sem precisar inventar muito. Mas como desgraça pouca é bobagem, após capturar a segunda torre, já com um bispo a mais, não vi que ele tinha um xeque perpétuo mais do que óbvio. E o pior: quando percebi que a casa para onde iria meu rei não estava disponível, pensei que levaria mate e aceitei feliz o empate que ele ofereceu...
Nem mesmo todos os cigarros que eu pude fumar em 3 minutos me fizeram mais calmo, e eu já não estava entendendo nada do torneio nem de xadrez nem de mim mesmo. Só me vinha à cabeça três letras, especificamente nesta ordem: "WTF?". Empurrei as peças na 4ª rodada para colocar as ideias em ordem... Foi preciso jogar de forma ridícula por 3 rodadas para eu lembrar que não adianta querer ganhar apenas por sentar em frente ao tabuleiro e mexer as peças. O resultado vem quando se joga bem, essa é a minha máxima - o ideal tantas vezes deixado de lado. Além do mais, quantos episódios, tanto positivos quanto negativos, serão necessários para eu aprender que não é o ganhar/perder que me deixa contente com o xadrez, mas sim as partidas e a qualidade das minhas decisões? Resulta que venci, meio torto, não me lembro, e segui para a quinta rodada. No fundo já nem me interessava mais recuperar o torneio ou o rating que perderia - a essa altura do campeonato, o que viesse era lucro.
Na quinta rodada enfrentei uma nova integrante da equipe de Florianópolis, a Juliane Dias. Dessa vez não pensei em rating, pontos, força do adversário... apenas fiz aquilo que devia estar pronto pra fazer em todas as partidas: me concentrei em jogar bem, lance após lance. A Ju jogou uma francesa das trocas, optei por rocar longo e logo entramos nos temas típicos dessa configuração. Só que ela demorou para tomar alguma atitude, preferindo preparar o controle da coluna 'e' ao invés de rolar os peões no flanco da dama como é habitual. Creio que já estivesse com grande vantagem quando ela optou por uma sequência de trocas que deixava a posição com uma relação de material que eu nunca experimentei em partidas de torneio: 2 torres contra 2 cavalos e bispo. Eu tinha um peão a mais e uma dama mais ativa, por isso acredito que conservava a vantagem, mesmo após as trocas.
A partida não foi lá aquelas coisas, mas finalmente uma partida com algo de interessante! Simples assim, apenas me concentrando em jogar bem. Inevitavelmente vem à cabeça a conversa com o Everaldo em Vitória, sobre o fator motivação. Comentei isso com a Ju, que também troca idéias com o Everaldo, e ela concordou comigo: a força do jogador cresce quando ele encontra sua real motivação. Mas ainda mais do que isso: sua satisfação aumenta, o xadrez fica mais prazeroso quando ele encontra o seu "por que xadrez". Assim foi a partir dessa rodada - apenas me concentrando em jogar bem.
Na 6ª rodada emparcerei com o Marcão, de Lages, e depois de uma abertura meio passiva da parte dele resolvi sacrificar um peão, mesmo sem ter muita certeza do que viria depois. Ele recusou, mas caiu numa posição muito apertada, com peças descoordenadas e linhas abertas contra seu roque. Aí, justo quando os momentos críticos se intensificavam um laptop dispara com a narração de um jogo de futebol ao lado das primeiras mesas, onde jogávamos. Na hora fiquei indignado, e o Marcão não menos do que eu, até que o Kaiser (que estava arbitrando) intercedeu por nós e desligou o baderneiro eletrônico e pudemos prosseguir. Não que o incidente tenha prejudicado o andamento do torneio, mas não deixa de ser uma falta de respeito (no mínimo, falta de cuidado) de jogadores que deveriam servir como exemplo. É como diz o ditado, em latim: "Pimentus olhus outrem, refrecus és"...
Coincidentemente, logo após a interrupção o Marcão faz um lance que me pareceu muito ruim e não sei se aproveitei da melhor forma, mas a posição parecia mais ganha para mim do que qualquer coisa. Com três peões a mais e peças ativas não creio que houvesse contra-jogo suficiente no final com 2T + B x 2T + B. Quase me enrolo com poucos segundos, mas consegui vencer.
E na última rodada, contra o Lúcio Amorim, após um torneio que começou desastroso, tive a chance de (finalmente!) entrar na premiação de uma etapa do circuito de rápido. Ganhando a partida iria a 5,5 pontos - suficientes para ficar entre os 10 primeiros e alcançar um objetivo (secundário, é verdade) que persigo (ou me persegue?) há bastante tempo. Com pretas já sabia o que iria enfrentar e sabia que ganhar naquela variante seria muito difícil. Acertei a previsão e jogamos um gambito da dama, variante das trocas. O Lúcio joga um ataque da minoria tradicional e eu escolhi um plano que parece duvidoso, mas as variantes me fazem crer que é viável.
[É possível que um ou dois lances estejam fora da ordem no final de T x T, que foi jogado com menos de 2 minutos para cada lado]
Defendida a posição com as pretas, era hora do golden blitz, já que estávamos na mesa 4 e nas duas últimas rodadas não é permitido empatar nas 10 primeiras mesas. O Lúcio escolheu a mão direita do Kaiser e pegou brancas, 6 minutos com obrigação de vencer.
Para minha surpresa ele jogou 1.e4 e eu respondi com 1...e6, naturalmente. Só que por algum mistério que nem Padre Quevedo desvendaria resolvi jogar a posição resultante depois de ...de4, idéia que já havia excluído do meu repertório. Jogando rápido para tentar equilibrar o tempo no relógio acabei caindo num dos vários temas dessa variante e sofri um ataque devastador no flanco do rei, perdendo rápido e sem muita luta.
E com isso, mais uma vez termino no quase. De certa forma, devo ficar satisfeito por não ter sido pior, levando em consideração o começo do torneio. O jeito é esperar a próxima etapa e ter em mente, desde o primeiro lance: o resultado vem quando se joga bem.
Obs.: para entender melhor a frase no começo do post, o vídeo abaixo pode explicar.

0 comentários:
Postar um comentário