sábado, 31 de julho de 2010

Placebo



Hoje à tarde joguei a segunda partida do match com a Beatriz Sulzbacher, pelo GrandPrix de Florianópolis. Pela segunda vez no match estive bem próximo da derrota, mas pude me salvar com um empate e vencer o match por 1,5 - 0,5. Não é preciso dizer que as partidas contém histórias que passam despercebidas, mesmo para quem está participando delas. Na partida que joguei hoje à tarde houve algo de muito significativo para mim, que não convém falar agora, mas pode ser comentado em outro post.

Evitarei postar a partida aqui, por não haver nada de muito interessante nela, mas no site do cxf.com.br pode-se baixar o PGN completo - que contém algumas joias. Das minhas partidas, gostei apenas de uma (contra o Sidnei Loyola, a primeira do match) que culminou com uma combinação do meu agrado.



Apesar de estar razoavelmente bem no torneio, com perspectiva de ficar entre os primeiros, as minhas partidas tem sido pobres de ideias e cheias de erros, no estilo "bola na rede" - vale gol de joelho, de barriga, de costas, o importante é fazer gol... [pausa para notar-se o tom cabisbaixo] Pode ser consequência do momento em que vivo e/ou prática reduzida nos últimos meses, o fato é que estou em má forma.

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"Quando penso, erro"
Anand

Mesmo assim continuo refletindo muito sobre xadrez e, não sei se por vício ou TOC, não resisto descrever o que penso sobre xadrez e o que é preciso para se desenvolver. Na verdade minto pra mim quando digo que não sei porquê faço isso... não é nenhum problema psicológico, mas talvez filosófico. Tão grande é a necessidade de me sentir à vontade com algo lógico que insisto em fazer anotações sobre as coisas e tentar entendê-las da forma mais racional possível - como se, ao me iludir que há alguma verdade superior em tudo, me sentisse mais completo. Talvez essa seja uma forma de se embriagar, que me joga no vazio quando o efeito vai embora e me obriga a buscar novas doses de compreensão.

Vou aproveitar o post para escrever sobre as recentes reflexões oriundas deste hábito em relação a xadrez. Quem sabe, num próximo post, eu esteja mais maduro em relação a este assunto e (com sorte) possa falar sobre como aprendi a perceber as coisas como elas são, não como preciso descrevê-las para entendê-las.

Nas últimas vezes em que trabalhei o assunto, percebi que há 3 pontos importantes, que seriam os elementos formadores da força do enxadrista. Escrevi em um post do ano passado, numa tentativa de descrever os componentes da força do enxadrista (que para mim, hoje, parece tão exageradamente complicada como equivocada - como esta será um dia?), que pode-se entender por "força" o potencial que um competidor tem para atingir seu objetivo, uma vez que em uma partida de xadrez há duas vontades conflitantes e tende a vencer aquela com maior potencial. Chamo esse potencial de "força" para facilitar o entendimento da coisa toda.

Começando pela parte mais direta, o primeiro pilar da força é o processo de tomada de decisões. Se xadrez é um jogo de análise e escolha, falhas nesse processo comprometem o rumo dos acontecimentos e a qualidade das decisões que são tomadas, independente de quão forte (tecnicamente) é o jogador. Percebi que, para mim, o processo é mais eficaz quando organizado da seguinte maneira:
1. Recolhimento das informações táticas, ou seja, ameaças, oportunidades, lances forçados que sugerem operações táticas de ganho para qualquer um dos lados, enfim, ideias que provocam alterações bruscas na posição e podem fazer a balança das chances pender rapidamente para um lado ou outro.
2. Recolhimento das informações posicionais, ou seja, quais são os fatores estratégicos relevantes ou temas principais presentes na posição, qual lado está superior e o que cada lado deve ter como objetivo estratégico de forma geral.
3. Escolha do plano, ou seja, quais operações serão realizadas, em qual área do tabuleiro, em que ordem e o que meu adversário pode fazer para contrariar meu plano.
4. Escolha do lance, ou seja, selecionar qual movimento é mais coerente com as informações recolhidas e com o plano elaborado, utilizando a técnica de lances candidatos e cálculo.

O conceito de processo de tomada de decisão já me ajudou muito no ano passado, especificamente no Citadino, quando comecei a empregar um processo de raciocínio disciplinado. É difícil seguir à risca em todos os momentos da partida um processo como esse, mas no mais das vezes é muito útil contar com um raciocínio organizado.

Outro pilar da força do enxadrista, que se manifesta pouco antes dos confrontos e, quando bem sucedido, permanece ao longo do combate é a força psicológica. Neste caso entra o fator motivação, que varia de indivíduo para indivíduo, mas em todos os casos deve servir para extrair do jogador o que ele tem de melhor para oferecer. Motivação não é uma coisa que simplesmente se escolhe, por isso a única atitude que se pode tomar nesse sentido (a meu ver) é se conhecer para saber seu próprio "porquê xadrez". Ultimamente tem sido difícil pra mim obter aquele ânimo competitivo que sinto nos meus melhores momentos, e ao mesmo tempo penso que não há muito que posso fazer em relação a isso... Sei que a felicidade que sinto com xadrez é a de superar a mim mesmo, ser mais forte, tomar boas decisões, mas se ultimamente isso não tem sido suficiente para extrair meu melhor, que posso fazer? Acho que quando os comentaristas do cotidiano falam em "fase boa" ou "fase ruim", como se fosse algo aleatório, é disso que eles estão falando.

O terceiro pilar da força do enxadrista, o mais óbvio, é a técnica. Este pilar é fortificado fora das competições, em qualquer momento que o enxadrista se dedica ao xadrez. Por técnica pode-se entender o conjunto de conhecimento, habilidades e compreensão que o enxadrista adquire com o estudo e a prática acumulados ao longo de sua experiência. Como se pode perceber pelo post abaixo, "O complexo e o lúdico" (uma tentativa, talvez sem sucesso, de ser menos cientista e mais artista na escrita), subdivido a técnica em 4 fundamentos: estratégia, tática, aberturas e finais.
1. A compreensão estratégica serve para entender a posição, reconhecer os elementos de longo prazo e planejar. A partir de coletâneas de partidas ou livros voltados para "estratégia" pode-se aprender sobre temas isolados ou elementos estratégicos categoricamente descritos e exemplificados.
2. A sensibilidade tática é aplicada no cálculo, alerta de perigo e execução do plano. Desenvolve-se a partir de exercícios de cálculo e prática constante.
3. As aberturas são uma ferramenta auxiliar para economizar tempo e energia "atalhando" para posições já conhecidas ou familiares. A seleção de um repertório de aberturas completo e o constante aprimoramento dele, por meio de memorização de variantes ou compreensão de temas/planos típicos, aumentam as chances de se chegar a um meio-jogo favorável.
4. A técnica de finais é útil para minimizar a necessidade de entender uma posição e calcular variantes incertas quando já se está com pouco tempo e energia. O conhecimento de finais transforma posições críticas (onde não se sabe exatamente o que fazer, o que pode dar certo ou errado) em posições exatas (onde já se sabe os conceitos que regem a posição, temas típicos, etc.). O constante estudo de posições variadas de final aumenta gradativamente a compreensão geral dos finais e aos poucos desenvolve um "repertório" de posições conhecidas.

É assim que penso na força do enxadrista hoje - talvez mais um ideal que eu não seja capaz de seguir. O que me deixa um pouco frustrado, e talvez seja o principal motivo da vontade de escrever sobre isso, é que posso descrever com graça e precisão ideais sobre a força do enxadrista, mas isso pouco ou nada faz para me deixar mais forte. Esses pensamentos foram idealizados durante a partida contra a Beatriz, hoje à tarde. Depois de conseguir me salvar e assegurar os 3 pontos do match, resolvi fazer algo de útil pelo meu xadrez: criei nova conta no Buho21 para jogar 3minKO...

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