sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O fim do começo




Depois de 2 anos sinto que chega ao fim um período. Na verdade, depois de 4 anos incorporado ao xadrez de Florianópolis, iniciarei um novo trabalho em outra cidade. Desde 2007 aprendi muita coisa e conheci várias pessoas que foram importantes no aprendizado, de atleta de Joguinhos até bi-campeão de Florianópolis. Houveram muitos erros nesse processo e às vezes tenho vontade de voltar atrás pra mudar certas coisas, mas sei que esse é um pensamento covarde e o que está feito não pode ser desfeito. Resta só isso, as coisas que aprendi. E se no geral foi bom, a tendência é que o período seja lembrado pelas coisas boas e não pelas coisas ruins.

Este blog está ligado à história que vivi aqui, sua essência (que é baseada no principal ensinamento que obtive) e conteúdo fazem parte deste período, por isso acho que é importante encerrar o ciclo e fechar o Dojo. Desde o começo de 2009 foram 95 posts, a maior parte sobre as competições que participei e o que aprendi com elas. Às vezes volto no tempo e percebo que eu tenho bastante pra aprender comigo... acho que deve ser normal, afinal, essa necessidade de reciclar e reaprender. Também gastei um bom tempo escrevendo sobre "teorias da força enxadrística" - o que não posso dizer que foi inútil, pois se não o tivesse feito não pensaria o que penso agora. Deve ser normal também construir certas ideias a partir de conceitos equivocados só pra perceber depois que está tudo errado e reconstruir do jeito certo... acho que é coisa da natureza humana. Talvez seja até melhor assim do que acertar de primeira, sem saber exatamente porquê.


Cada enxadrista deve construir suas próprias teorias sobre xadrez, disse o Kasparov, e eu o fiz de diversas maneiras. Não há mal nisso, mas é uma estupidez querer achar uma maneira universal de entender o xadrez - aliás, na própria afirmação do Kaspa está implícita a subjetividade. De tudo o que escrevi aqui até agora, fico com 2 teorias que convergem em uma:
- longe das competições é importante desenvolver os atributos técnicos, os conhecimentos e habilidades que serão úteis durante as partidas e dentro das competições é importante colocar-se sob um perfil psicológico que ajude a extrair o máximo de si mesmo;
- muitas coisas contribuem para a força (e fraqueza) de um enxadrista, mas na prática tudo pode se resumir à conteúdo (técnica, experiência) e personalidade (a força motriz, o 'eu' de cada um que não precisa de teorias para guiar-se);
- finalmente, xadrez é uma luta onde vence o mais apto, nem sempre o que é mais lógico ou mais "correto" (seja qual for o ponto de vista que determina o certo e errado) trará o resultado desejado.


Também deixei aqui algumas ideias sobre treinamento e hoje penso que a maior parte das coisas que eu achava que deviam ser trabalhadas são pouco ou nada importantes. Agora me parece que as habilidades mais úteis (ou, talvez, mais influentes) ao jogador são: a percepção de temas táticos, a capacidade de avaliar a posição de forma objetiva (levando em consideração as características estratégicas mais definidas) e o cálculo. Desenvolver essas habilidades permitem que o enxadrista dispense um estudo aprofundado de aberturas ou passe horas estudando finais teóricos tão pouco úteis quanto chatos. Aliás, o Umetsubo me recomendou treinar partidas pensadas jogando aberturas completamente diferentes do habitual, com a ideia de resolver problemas no tabuleiro sem ajuda da teoria, evitando assim a automatização do raciocínio. Como ele provou ao vencer o Camp. Estadual, o estudo de aberturas é ainda menos importante do que eu pensava, pois venceu MFs e MIs com um conhecimento mínimo de teoria, em várias partidas buscando soluções a partir do 4º ou 5º lance.


Para o ano que vem tenho metas bem definidas como jogador e a estrutura de trabalho será mais rígida. Me parece que vou poder explorar melhor o meu potencial nos dois campos, principalmente porque o novo estimula - diferente da rotina, que esmorece. Florianópolis e os quatro anos que me dediquei à ela foram importantes pra mim, mas é tempo de deixar pra trás o que passou e recomeçar, levando comigo o que aprendi ao longo deste período. Ainda tenho brilho nos olhos e muito o que fazer.

1 comentários:

  1. Daniel,

    Felicidades para o seu novo projecto.

    Gostei de ler o que foi escrevendo aqui no blogue.

    Constatei a sua evolução, ou se quiser, a sua postura perante a sua 'nova' realidade. Sendo o mesmo, deixou de o ser ao constatar que estava diferente e que faria diferente se o fizesse de novo.

    Tal como dizia Luis de Camões, «tudo é composto de mudança tomando sempre novas qualidades». Será esta a sua evolução?

    O importante, acredito, é que tivesse feito o que a sua consciência ditava e isso é quanto basta para que que se deva sentir reconfortado e não dar o tempo por perdido, porque nunca o é.

    Desculpe-me estas palavras, mas o título do seu blogue é demais sugestivo para que possa ficar indiferente às linhas que escreveu nesta mensagem de despedida.

    O Daniel saberá encontrar outra forma de dialogar com os leitores que foi deixando na blogosfera, ligados ou não ao xadrez.

    Obrigado pelos excelentes textos que aqui deixou.

    Um abraço renovado de felicidades.
    Bom ano de 2011 e até sempre.

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