quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

3-in-a-row

Semana difícil...
Comecei enfrentando o Marcelo Pomar com pretas na segunda-feira. Embora tenhamos ambos tentado fugir da preparação contrária e acabar chegando em um terreno neutro (uma Gioco Piano), consegui encaixar minha estratégia pra partida: jogar devagar, melhorar a posição aos poucos e esperar que ele se precipitasse para aproveitar a chance. Ele acabou cometendo um erro de avaliação ao ficar com par de cavalos contra par de bispos e sua posição foi piorando aos poucos até finalmente perder na luta intensa do apuro de tempo mútuo. Essa questão do par de bispos é até bastante interessante, já que em determinada posição os cavalos realmente jogvam mais... eu acreditei que o potencial dos bispos iria prevalecer no longo prazo, se eu acertasse as manobras e trocasse logo as peças pesadas para poder abrir a posição. Felizmente eu estava certo e venci a partida mais dura do torneio até agora.

Na quarta tive que enfrentar o então líder Brayan Paredes. Ele vinha de um empate contra o Jaílson e vitórias contra Sidnei Loyola e Djalma Aguiar. Eu esperava uma partida bastante posicional, manobreira, muito por causa da defesa que ele emprega contra 1.d4. Eu preparei para enfrentar a Holandesa Stonewall dele com um Cg1-h3, menos comum mas muito interessante e coerente com a posição. Até foi nessa preparação que eu percebi o quanto a preparação de aberturas voltada para o curto prazo é benéfica a longo prazo: passei a entender muito melhor a holandesa, podendo preparar qualquer variante com mais conteúdo.

O Brayan tentou passar as peças pro flanco rei rápido, mas se o negro tem ataque na posição em que ele sacrifica o cavalo tudo o que eu aprendi sobre xadrez está errado... Como um ataque adversário pode dar certo se eu tenho todas as peças bem desenvolvidas e coordenadas e ele tem 3 peças ativas, enquanto guarda um pacote com torre, cavalo e bispo nas casas a8, b8 e c8?? Avaliei corretamente e friamente aceitei a peça, devolvendo logo depois para acabar com o pseudo-ataque e emergir com posição muito superior. A partir daí ele se apurou, entregou uma peça e conquistei mais um ponto.

Para fechar a semana ainda tinha que enfrentar o Francisco França, com negras. Me parecia a partida mais difícil, pela escolha da abertura e pela influência da tabela. O fato de me distanciar dos outros concorrentes no caso da vitória me gerou certa ansiedade, difícil de controlar e totalmente fora da minha estratégia pro torneio. Passei a tarde preparando gambito da dama pra ver um frustrante 1.e4... mas tudo bem, a gente se especializa pra não precisar preparar: 1...e6. Pois eis que ele entra no maior furo do meu repertório: depois de entrarmos em um Chatard-Alekhine com c7-c5 rápido ele manda Cc3-b5 e eu senti aquele gelo no peito de quando nos damos conta do perigo iminente. Depois de f7-f6 o branco joga Bf1-d3 e chega-se a linhas extremamente agudas onde é realmente preciso saber os lances na ordem correta para não ficar mal. São lances muito difíceis e decisivos - especialmente pro condutor das negras. Ele optou por tomar exf6 ao invés de Bf1-d3 e fiquei mais tranquilo.

Logo no começo da partida surgiram muitas possibilidades de complicação e eu confesso que não consegui ver tudo. Joguei o que me parecia correto, vendo até onde podia mas confiante na intuição. Ele recusou a oferta de material e jogou os lances mais fortes, na minha opinião, apenas preparando a posição e me forçando a jogar os melhores. Quando eu joguei Bc8-d7 a posição me parecia bastante difícil, senti que se ele acertasse mais uns 3 lances eu estaria inferior e me preparei pra uma partida muito dura onde eu provavelmente teria que lutar pra igualar e empatar depois. Assim que sentei de volta à mesa ele respondeu com d4xc5 me permitindo e6-e5!! que ganha no ato. Ele seguiu a linha que dava mais chances de espernear e pela primeira vez no torneio eu me vi fora da partida. Não necessariamente perdido, mas sem condições de encontrar os melhores lances - a excitação gerada pelo ganho imediato logo após me preparar mentalmente pra uma luta de resistência me deixou embrigado. A partir daí só fiz besteira e cheguei a ficar perdido, mas tive realmente muita sorte e depois que ele deixou passar sua chance converti o ponto pouco a pouco.

Agora me resta enfrentar o Djalma Aguiar na terça-feira e o Sidnei Loyola de Sá na quarta-feira. Esse final de semana vai ser muito bom pra relaxar, aliviar a tensão e voltar pro meu centro, a estratégia definida antes do torneio. A parte mais difícil vai ser manter a serenidade diante da possibilidade de ser campeão, mas é o que precisa ser feito: manter a serenidade e seguir firme na estratégia que tracei - me concentrar ao máximo em cada partida, defender minha posição como se defendesse minha própria vida e ter a tranquilidade suficiente para jogar o melhor sem pensar no resultado. O conforto da vitória fica pra depois, a guerra ainda não acabou.

Marcelo Pomar - Daniel Brandão


Daniel Brandão - Brayan Paredes


Francisco França - Daniel Brandão

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